domingo, 14 de janeiro de 2018

Semana de 29 de dezembro de 2017 a 5 de janeiro de 2018

H
á um texto tristemente bonito da Cecília Meireles – “Brinquedos incendiados”. Nos foi dado numa aula de Redação do Prof° Acácio Scos. Sem querer fazer nenhum tipo de cotejo, adicionamos nossa versão de “Brinquedos incendiados” em versos baseados na linda prosa dessa grande autora.

Brinquedos incendiados

            Uma noite houve um incêndio num bazar. E no fogo total desapareceram consumidos os seus brinquedos. Nós, crianças, conhecíamos aqueles brinquedos um por um, de tanto mirá-los nos mostruários – uns, pendentes de longos barbantes; outros, apenas entrevistos em suas caixas. Ah! Maravilhosas bonecas louras, de chapéus de seda! Pianos cujos sons cheiravam a metal e verniz! Carneirinhos lanudos, de guizo ao pescoço! Piões zumbidores! – e uns bondes com algumas letras escritas ao contrário, coisa que muito nos seduzia – filhotes que éramos, então, de M. Jordain, fazendo a nossa poesia concreta antes do tempo
            Às vezes, num aniversário, ou pelo Natal, conseguíamos receber de presente alguns bonequinhos de celuloide, modestos cavalinhos de lata, bolas de gude, barquinhos sem possibilidade de navegação... – pois aquelas admiráveis bonecas de seda e filó, aqueles batalhões completos de soldados de chumbo, aquelas casas de madeira com portas e janelas, isso não chegávamos a imaginar sequer para onde iria. Amávamos os brinquedos sem esperança nem inveja, sabendo que jamais chegariam às nossas mãos, possuindo-os apenas em sonho, como se para isso, apenas, tivessem sido feitos.
            Assim, o bando que passava, de casa para a escola e da escola para casa, parava longo tempo a contemplar aqueles brinquedos e lia aqueles nítidos preços, com seus cifrões e zeros, sem muita noção do valor – porque nós, crianças, de bolsos vazios, como namorados antigos, éramos só renúncia e amor. Bastava-nos levar na memória aquelas imagens e deixar cravadas nelas, como setas, os nossos olhos.
            Ora, uma noite, correu a notícia de que o bazar incendiara. E foi uma espécie de festa fantástica. O fogo ia muito alto, o céu ficava todo rubro, voavam chispas e labaredas pelo bairro todo. As crianças queriam ver o incêndio de perto, não se contentavam com portas e janelas, fugiam para a rua, onde brilhavam bombeiros entre jorros d’água. A elas não interessavam nada peças de pano, cetins, cretones, cobertores, que os adultos lamentavam. Sofriam pelos cavalinhos e bonecas, os trens e palhaços, fechados, sufocados em suas grandes caixas. Brinquedos que jamais teriam possuído, sonhos apenas da infância, amor platônico.
            O incêndio, porém, levou tudo. O bazar ficou sendo um fumoso galpão de cinzas.
            Felizmente, ninguém tinha morrido – diziam em redor. Como não tinha morrido ninguém? , pensavam as crianças. Tinha morrido o mundo e, dentro dele, os olhos amorosos das crianças, ali deixados.
            E começávamos a pressentir que viriam outros incêndios. Em outras idades. De outros brinquedos. Até que um dia também desaparecêssemos sem socorro, nós brinquedos que somos, talvez de anjos distantes!

(Cecília Meireles)
Transcrito do Blog Veredas das Línguas.



Brinquedos incendiados
(inspirado em texto homônimo de Cecília Meireles)

Poeta
Paulo Ferreira da Rocha Filho
(Quatro vezes aprovado em Concurso Nacional Novos Poetas do Brasil).

                                  I
O fogo destrói a matéria e dilacera nossa alma
O que vemos, o que temos, pouco se salva
O incêndio no bazar naquela noite de amargura destacava bem a rua
Bem mais que a luz da própria Lua
                                 II
As labaredas consumiam bonecos e carneirinhos lanudos
Tão rápido como se fossem finos canudos
Decompondo até a inquebrantabilidade da poesia concreta
Quadro visível mostrando a realidade funesta
                                 III
Brinquedos que não podíamos comprar – nossa fantasia
Crepitando diante de meus olhos. Muita tristeza, quem diria...
Era como se as chamas ardessem em mim triste figura desolada
O que sobrou foi uma paisagem de destruição, tétrica – calcinada.


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