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Crise, crise, crise. Que crise?
Paulo
Ferreira
“Não pretendemos que as coisas mudem, se
sempre fazemos o mesmo. A crise é a melhor bênção que pode ocorrer com as
pessoas e países, porque a crise traz progresso. A criatividade nasce da
angústia, como o dia nasce da noite escura. É na crise que nascem as invenções,
os descobrimentos e as grandes estratégias. Quem supera a crise, supera a si
mesmo sem ficar “superado”. Quem atribui
à crise seus fracassos e penúrias, violenta seu próprio talento e respeita mais
os problemas do que as soluções. A
verdadeira crise é a crise da incompetência... Sem crise não há desafios; sem
desafios, a vida é um rotina, uma lenta agonia. Sem crise não há mérito. É na
crise que se aflora o melhor de cada um”
– Albert Einstein.
N
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ão
existe ausência de crises – elas até se repetem na História de maneiras diferentes, mas a essência é a mesma. Crises já demoliram
economias poderosas quando em 476, sucumbiu o império romano.
Em 1929 a quebra da Bolsa de
Nova York arrastou para a falência mais de 9 mil bancos e 85 mil empresas. O desemprego
atingiu 13 milhões de norte-americanos - ruíram as finanças do mundo ocidental.
No ano de 1973, outra rebordosa na
economia mundial. Desta vez, com a crise do petróleo, quando o barril foi
majorado em 400% num curto período. O Brasil foi duramente atingido: epitáfio
do “Milagre Econômico Brasileiro”. Nos três casos, foram golpes duros.
Marx em 1867 em sua obra O Capital
mostra que “o capitalismo é propenso a
crises econômicas”. Todo e qualquer economista sabe que crise em nosso
sistema econômico é, por tudo que vemos e vivemos, previsível e cíclica. A
crise do capitalismo no seio social é constante e observada de uma forma
velada. O sistema não produz emprego pleno para a população porque está
friamente subordinado a leis do mercado movidas por mecanismos instáveis de
especulação. Nessa arena romana o leão (capital) sempre devora o cristão
(social). Crise é palavra de ordem. Muitos governantes usam-na para justificar
os próprios desmandos crônicos na economia. Separando o joio do trigo, povo não
produz crises. Crises são de competência restrita aos governos. Países entram
em crise, mas não foi porque o povo deixou de trabalhar, de produzir. E se
estamos constantemente trabalhando, quem gerou essa crise senão o governo? E as
promessas e plataformas de governo recitadas à exaustão em épocas de campanhas
políticas, se dissolveram no ar? Um professor na Faculdade, falou-me que “crise
é setorial”. Faz sentido - por isto não atinge todo mundo. Que crise está
passando o atleta Cristiano Ronaldo que comprou recentemente um apartamento em Nova York por R$ 65
milhões? Ou Neymar que comprou um jatinho por 35 milhões de reais e a Receita
Federal com sua lupa alfandegária bloqueou R$ 189 milhões do jogador? É difícil
acreditar e aceitar que num planeta finito, pessoas ganhem salários infinitos
produzindo tão pouco. Num mundo que valoriza e prioriza o capital em detrimento
da vida, diante desses dois exemplos, perguntamos: com esta crise, a sobrevivência
dessas duas pessoas está ameaçada? Elas podem até estar passando por “dificuldades”.
Mas esta “dificuldade” apenas as compromete porque eles apenas podem estar
ganhando menos dinheiro. Não estão com a sobrevivência ameaçada - condições de
milhões. Também temos casos contrários - alguns ganham muito com crises. Trazendo
o problema para o nível individual, a pessoa tem uma ferida que nunca a incomoda
– a ferida se abre e a pessoa não pode mais andar – é a crise - É assim que funciona. O país já não pode andar – a ferida abriu. Parte da população,
outrora satisfeita e outra insatisfeita com o (des)governo, inconformadas,
passam a reclamar. Vivemos esse episódio em junho de 2013 com o estopim da
bomba social aceso pelos preços abusivos e impopulares das passagens de ônibus,
gasolina e pela corrupção. A população que até então vinha tolerando a
situação, nesse momento, junta todos os problemas que tem e, vai extravasá-los nas
ruas. Tivemos os Black bloc – mascarados usando roupas pretas se insurgindo
contra um Estado eticamente falido.
E quando as instituições mantenedoras
da ordem e da condução do país não funcionam, vem o caos. E numa democracia
onde ninguém se respeita e todos fazem o que quer, ela se transforma num regime
da própria opressão.
Crise somente se soluciona quando
atinge a todos sem distinção. Até mesmo porque a riqueza e opulência afastam as
pessoas ricas das pobres. Na fome todos se irmanam.
