sexta-feira, 16 de outubro de 2015


Semana de 16 a 23 de outubro de 2015


Gravura - www.rafaelapecanha.com
                          

Crise, crise, crise. Que crise?

Paulo Ferreira


“Não pretendemos que as coisas mudem, se sempre fazemos o mesmo. A crise é a melhor bênção que pode ocorrer com as pessoas e países, porque a crise traz progresso. A criatividade nasce da angústia, como o dia nasce da noite escura. É na crise que nascem as invenções, os descobrimentos e as grandes estratégias. Quem supera a crise, supera a si mesmo sem  ficar “superado”. Quem atribui à crise seus fracassos e penúrias, violenta seu próprio talento e respeita mais os problemas do que  as soluções. A verdadeira crise é a crise da incompetência... Sem crise não há desafios; sem desafios, a vida é um rotina, uma lenta agonia. Sem crise não há mérito. É na crise que se aflora o melhor de cada um” – Albert Einstein.


N
ão existe ausência de crises – elas até se repetem na História de maneiras diferentes, mas a essência é a mesma. Crises já demoliram economias poderosas quando em 476, sucumbiu o império romano.
          Em 1929 a quebra da Bolsa de Nova York arrastou para a falência mais de 9 mil bancos e 85 mil empresas. O desemprego atingiu 13 milhões de norte-americanos - ruíram as finanças do mundo ocidental.
          No ano de 1973, outra rebordosa na economia mundial. Desta vez, com a crise do petróleo, quando o barril foi majorado em 400% num curto período. O Brasil foi duramente atingido: epitáfio do “Milagre Econômico Brasileiro”. Nos três casos, foram golpes duros.
          Marx em 1867 em sua obra O Capital mostra que “o capitalismo é propenso a crises econômicas”. Todo e qualquer economista sabe que crise em nosso sistema econômico é, por tudo que vemos e vivemos, previsível e cíclica. A crise do capitalismo no seio social é constante e observada de uma forma velada. O sistema não produz emprego pleno para a população porque está friamente subordinado a leis do mercado movidas por mecanismos instáveis de especulação. Nessa arena romana o leão (capital) sempre devora o cristão (social). Crise é palavra de ordem. Muitos governantes usam-na para justificar os próprios desmandos crônicos na economia. Separando o joio do trigo, povo não produz crises. Crises são de competência restrita aos governos. Países entram em crise, mas não foi porque o povo deixou de trabalhar, de produzir. E se estamos constantemente trabalhando, quem gerou essa crise senão o governo? E as promessas e plataformas de governo recitadas à exaustão em épocas de campanhas políticas, se dissolveram no ar? Um professor na Faculdade, falou-me que “crise é setorial”. Faz sentido - por isto não atinge todo mundo. Que crise está passando o atleta Cristiano Ronaldo que comprou recentemente um apartamento em Nova York por R$ 65 milhões? Ou Neymar que comprou um jatinho por 35 milhões de reais e a Receita Federal com sua lupa alfandegária bloqueou R$ 189 milhões do jogador? É difícil acreditar e aceitar que num planeta finito, pessoas ganhem salários infinitos produzindo tão pouco. Num mundo que valoriza e prioriza o capital em detrimento da vida, diante desses dois exemplos, perguntamos: com esta crise, a sobrevivência dessas duas pessoas está ameaçada? Elas podem até estar passando por “dificuldades”. Mas esta “dificuldade” apenas as compromete porque eles apenas podem estar ganhando menos dinheiro. Não estão com a sobrevivência ameaçada - condições de milhões. Também temos casos contrários - alguns ganham muito com crises. Trazendo o problema para o nível individual, a pessoa tem uma ferida que nunca a incomoda – a ferida se abre e a pessoa não pode mais andar – é a crise -  É assim que funciona. O país já não pode  andar – a ferida abriu. Parte da população, outrora satisfeita e outra insatisfeita com o (des)governo, inconformadas, passam a reclamar. Vivemos esse episódio em junho de 2013 com o estopim da bomba social aceso pelos preços abusivos e impopulares das passagens de ônibus, gasolina e pela corrupção. A população que até então vinha tolerando a situação, nesse momento, junta todos os problemas que tem e, vai extravasá-los nas ruas. Tivemos os Black bloc – mascarados usando roupas pretas se insurgindo contra um Estado eticamente falido.
          E quando as instituições mantenedoras da ordem e da condução do país não funcionam, vem o caos. E numa democracia onde ninguém se respeita e todos fazem o que quer, ela se transforma num regime da própria opressão.
          Crise somente se soluciona quando atinge a todos sem distinção. Até mesmo porque a riqueza e opulência afastam as pessoas ricas das pobres. Na fome todos se irmanam.