sexta-feira, 10 de julho de 2015

                           

Pai do cantor Cristiano Araujo: “Será que Deus existe”?

“Deus não é a fonte dos males... Eles existem devido ao pecado voluntário da alma. À qual Deus deu livre escolha.” – Contra fortunatum manichaeum, Acta seu disputatio Cap. 20.


F
ragilizado pela morte prematura do filho, João Reis de Araujo, pai do cantor, perguntou: “Será que Deus existe”? 
          Se até Santo Agostinho também teve esses momentos de conflitos existenciais, abandonando a fé cristã inicial por não compreender como um ser imaterial criador do universo material não pudesse lidar com sua capacidade de operar os  problemas gerados pelo mal e, suas conseqüências. O sofrimento.é um grande delator da fraqueza humana. Somente Jó, em condição de extrema expiação, resistiu a dor sem negar a Deus, mesmo sendo submetido a sete provas profundamente malévolas. No mais, somos seres frágeis e, ainda mais na condição hedonista cultuada pela sociedade, nos tirou parte de nossa resistência à dor.
          Geralmente em acidentes desse tipo, vários fatores combinados podem ter originado a tragédia. Some-se a isso, parodiando Chico Buarque, é como se “não [existisse] pecado do lado de baixo do Equador” –  tudo é permitido. Cumprir leis e normas é pouco frequente. Basta observar como muitas pessoas se comportam ao semáforo: luz verde – passagem livre para os carros. Mas se tiver  uma brechinha, pedestres agem como se verde para os carros fosse o vermelho que permite a passagem daqueles. Não se trata de daltonismo típico – aqui o daltonismo é social. E dessa e outras ações sistematicamente repetidas de forma banalizadas no dia-a-dia, vamos construindo nossa sociedade corrompendo os bons costumes.
          Alguns agravantes saltam aos olhos. Feitas as perícias preliminares, o fabricante do Range Rover afirmou que seu produto não tinha as rodas  originais. As do acidente traziam trincas reparadas com soldas – equipamentos comprometidos. Naquela madrugada de 24 de junho de 2015, o carro parara num posto de combustível. Seguindo viagem madrugada adentro, depois de percorridos 57km ocorreu o capotamento quando estourou um dos pneus do carro.  Esse percurso foi vencido no tempo de 21 minutos no trecho entre Morrinhos e Pontalina na BR-153, em Goiás. Fazendo cálculos da Física, calcula-se uma velocidade media de 162km/h. Pelo Código Brasileiro de Trânsito, a maior velocidade é de 110km/h. As vítimas fatais, no banco traseiro, não usavam cinto de segurança. Ele com 29 anos; ela, com 19 – em plena capacidade produtiva. Vidas ceifadas; castelos de sonhos desmoronados.
          Alta velocidade é coisa para Fórmula 1. Com um detalhe: o circuito é totalmente desimpedido.  Os pilotos foram treinados em categorias menores e estão preparados para o ofício. Todos os carros correm no mesmo sentido. À menor infração, o diretor da prova pode de acordo com o regulamento punir o piloto infrator – é inadmissível  por em risco a própria vida e a dos demais companheiros.
          É de se esperar que o motorista do cantor, Ronaldo Miranda, 40, cônscio de sua responsabilidade e dotado de peculiar profissionalismo seguisse normas básicas de trânsito – não excedendo o limite de velocidade. E ainda mais, quando se dirige à noite quando os cuidados redobram. Aí voltamos às pequenas infrações que cometemos cotidianamente. E Vamos nos acostumando a elas com um certo relaxamento para sua aceitação: “Eu posso andar além da velocidade permitida, não tem guarda, ninguém está vendo mesmo...” . É essa a velha mania de querer levar vantagem em tudo – Lei de Gérson. Resultado: tragédia com morte. O custo porém é dividido com toda sociedade. Isto porque uma sociedade em que todos querem levar vantagem em tudo; todos saem perdendo.
          Furar filas, apresentar declaração falsa para o imposto de renda, não usar luzes de pisca-pisca ao fazer as curvas, fazer ultrapassagem proibida, pode ser o começo de tudo isso. Só não sabemos como tudo irá terminar.



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