sexta-feira, 3 de julho de 2015

                                              

2)    Malditas vírgulas, benditas vírgulas

Paulo Ferreira

“O sentido de minhas vírgulas não é o de dividir as suas palavras, mas o de pausá-las... para que eu possa sentir e degustar com a justa suavidade o que busca me dizer.” -
Júlio Ramos da Cruz Neto


N
o artigo da semana passada – “Pingos de Filosofia na sua bodas de papel” cometeu um deslize gramatical. Fosse no trânsito, seria uma infração com perda de pontos na carteira. Tecendo um breve comentário a respeito do médico Dr. Jonathan Piaclekos, escrevemos: “Não medindo esforços, o médico de passagem naquele momento, fez todo o procedimento para reanimar a vítima desfalecida no chão.” O correto é: “Não medindo esforços, o médico, de passagem naquele momento, fez todo o procedimento para reanimar a vítima desfalecida no chão:” Publicado, relemos o artigo, quando reparamos no erro cometido. Nosso elogio ficou só na intenção - transformou-se num xingamento. Onde já se viu, médico de passagem?! Passagem denota temporalidade, transitalidade. E no texto, reconheçamos, a falta da vírgula ficou mal. Lidar com a Língua Portuguesa não é fácil. Quer ver, a falta de vírgulas até já condenou generais: Na antiga Grécia, havia os oráculos onde as pitonisas previam o futuro. Conta a lenda que um grande general grego foi até lá e consultou a profetisa, para ver se iria ter sucesso ou não na guerra que ora começava. Ela consultou o oráculo e deu a seguinte resposta: “Irás voltarás não morrerás.” O resultado foi contraproducente – o militar morreu. E a profecia, como ficou? Faltou vírgula. Correto seria se fosse escrito assim: “Irás. Voltarás? Não, morrerás.”
          Mas quem essa vírgula pensa que é? Ela não tem o poder de finalizar uma frase ou oração como o ponto. Uma frase sem um ponto final fica com o sentido inalterado. O mesmo não podemos dizer dessa tal vírgula. Dando um zum no ponto, geometricamente falando, este tem uma forma definida – é um círculo. Podemos até calcular diretamente sua área. A vírgula é um polígono irregular – um círculo com um rabisco pendurado, ou seja, não tem nem definição – é como se fosse feita às pressas – um rascunho, uma coisa inacabada. Ela não tem forma definida nem a elegância de outros sinais gráficos. Mas que atrapalha, sim. E muito.
“Observação Sobre a vírgula* :
Vírgula pode ser uma pausa… ou não.
Não, espere.
Não espere.

Ela pode sumir com seu dinheiro.
23,4.
2,34.

Pode ser autoritária.
Aceito, obrigado.
Aceito obrigado.

Pode criar heróis.
Isso só, ele resolve.
Isso só ele resolve.

E vilões.
Esse, juiz, é corrupto.
Esse juiz é corrupto.

Ela pode ser a solução.
Vamos perder, nada foi resolvido.
Vamos perder nada, foi resolvido.

A vírgula muda uma opinião.
Não queremos saber.
Não, queremos saber.

Uma vírgula também muda tudo.

Um exemplo adicional:
Se o homem soubesse o valor que TEM a MULHER andaria de quatro à sua procura.
Se você for mulher, certamente colocou a vírgula depois de MULHER.
Se você for homem, colocou a vírgula depois de TEM.
Estamos assumindo mea culpa. Dr. Jonathan por sua vez, até poderia mover um processo contra Pingos de Filosofia por injúria, danos morais ou uma outra sanção qualquer nos códigos do Direito Romano. No mínimo, o direito de resposta. Mas conhecendo sua conduta ilibada e sendo meu amigo, sei que ele irá tirar de sua sacola de bondade o perdão que nos cabe. Ele sabe bem disso. Devo-lhe minha vida.
          É serio, mas a Gramática tem dessas coisas.   Se nas esquinas cada perigo nos espreita, nas linhas que escrevemos também.

 *Nota: Fizemos um enxerto: começa em “Observação sobre a vírgula” e finaliza em: Se você for homem, colocou a vírgula depois de TEM.”  Ou melhor, é tudo que está escrito na cor azul - Foi transcrito do Blog do Gilberto Cabegg – Escritor e assessor Editorial – Ghost Writer