Semana
de 15 a 22 de janeiro de 2016
O consagrado, o consagrando e o consumido
(comentário a
respeito de Lionel Messi, Wendell e um anônimo)
Paulo Ferreira
“O sucesso é o único critério infalível de sabedoria
para as mentes vulgares” – E. Burke – Político inglês
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O
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dia 11 de janeiro de 2016 foi importante para
dois esportistas do futebol. Messi, quando recebeu pela 5ª vez a Bola de Ouro da FIFA
como melhor jogador do ano de 2015. O até então desconhecido Wendell Lira foi agraciado
também pela FIFA como vencedor do Prêmio Puskas na condição de autor do gol
mais bonito desse mesmo ano. Também nesse jubiloso dia 11 foi encontrado o
corpo de um desconhecido que viajara no exíguo espaço do trem de pouso do Boing
777 da Air France.
Três
personagens com histórias diferentes
a)
O
consagrado - Lionel Andrés Messi – jogador do [quase] imbatível time do
Barcelona e que durante o ano de 2015 ganhou UU$41,3 milhões;
b)
O consagrando - Wendell Lira –A “façanha” alcançada pelo gol mais
bonito do ano foi no Estádio Serra Dourada contra do Atlético-GO - uma meia bicicleta que promete mudar por
inteiro a vida do jogador;
c)
O consumido
- um corpo desconhecido – “‘Tá lá um corpo estendido no chão”. Assim foi
encontrado debaixo do avião um corpo não identificado.
Podemos com esses três personagens
desenharmos uma
Pirâmide Social
a)
Base – o corpo
desconhecido. Representa muito bem a condição da maioria da população do
Planeta. É gente que não tem acesso ao mínimo das condições dignas de vida.
Condição essa mais próxima da dos animais que da humana. Um homem tentou viajar de avião ocupando o
espaço do trem de aterrissagem. Provavelmente faltava-lhe dinheiro para pagar
passagem. E talvez inspirado no herói James Bond – 007 na tentativa
“cinematográfica” de chegar a Paris morreu durante o voo. Mal sabia ele que em
condição de cruzeiro (grandes altitudes) o avião enfrenta temperaturas externas
que podem chegar até -40° C(40 graus Celsius negativos). Considerando que a
água congela a 0°C, já dá para imaginar o frio a que foi submetido. Também
nessas condições, o oxigênio se torna rarefeito e com isso a dificuldade de
respiração. Ao menos ele nem tenha passado por isso, no recolhimento das rodas
no início da decolagem, fora por elas esmagado.
b)
Fase
intermediária
– aqui representada pelo jogador Wendell – desempregado há quatro meses. D. Maria Edileuza da Silva, mãe do jogador desabafou: “ele não
tinha nem dinheiro pra comprar leite para a filha. Agora empregado, já ganhou até tratamento dentário.
Com o dinheiro do prêmio vai comprar uma casa. Já começa a experimentar o gosto
da mobilidade ascendente social. Saiu da
pobreza e, sabe-se lá, pode até chegar ao topo. Pode entrar aí um comercial de
um produto que tenha a sua cara e, adeus pobreza;
c)
Topo - como exímio alpinista, chegou ao píncaro da
escalada social na visão capitalista. Conhece bem o desenho da pirâmide. Dela toda sua geografia e sua fisiologia – transitou
da base ao ápice.
Ao nascermos, encontramos um mundo
construído. As sociedades oferecem metas
alternativas de vida. Nem sempre essas metas são alcançadas pela maioria –
processo de exclusão social. E somente uma minoria privilegiada chega ao pico
da pirâmide – o que explica fazermos parte de um modelo de exclusão social. Por
isso, o sistema, embora formado por todos, apenas atende a uma menor parcela da
população. A reboque vem a concentração de renda nas mãos de poucos. E toda vez
que comemoramos com gritos de euforia um gol de um atleta que tem um
supersalário, estamos de forma direta torcendo contra nós mesmos. É a condição em
que o dominado clama para si mesmo por mais instrumento de dominação.
É falha a atuação do Estado no
desenvolvimento humano no Brasil. A vida de cada um vai ser definida por uma
espécie de loteria – salve-se quem puder.
Na maioria das vezes o próprio patrício por não ter massa crítica atribui
a culpa de seu fracasso a si mesmo, quando deveria imputar a culpa à ausência
de programas de fundo social. Esse comportamento reflete a falta de compromisso,
jogando à miséria milhões de pessoas. Isto é assunto que a Educação e as mídias
viram às costas. Nisso o Brasil também assume uma grande dívida com seu povo.
Tudo é conduzido como se estivéssemos
em um jogo. Nesse jogo sempre ganha a minoria e perde a maioria. E no grande
estádio chamado Brasil o placar somente marca gol contra.