Semana de 1° a 8 de janeiro de 2016
Transporte
público – ainda um problema insolúvel
Paulo Ferreira
“A
política de incentivo do Governo Federal ao transporte individual está na
contramão da mobilidade urbana sustentável”.
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o abrirmos a torneira,
a água jorra em abundância; a um simples toque no interruptor, as lâmpadas
acendem. Neste caso, fornecimentos de
água e de energia elétrica são prestados à população como serviços de
excelência.
Mas ao sairmos de casa para termos acesso
ao transporte público, tudo muda de figura. Até parece uma terra de ninguém e
que prevalece a lei do mais forte. Transporte público no Brasil carrega consigo
cinco grandes chagas: ineficiente, precário, inseguro, desconfortável e caro.
Depender dele claro, que não é boa coisa. Tripulação despreparada, passageiros
também de igual quilate. Eu que sou usuário desse serviço já presenciei por
inúmeras vezes mulheres com criança de colo numa mão, numa outra, sacolas e ao
mesmo tempo ter que fazer malabarismo para como se tivesse uma terceira mão
para tirar o dinheiro da bolsa para pagar a passagem, ir procurar se acomodar
com o ônibus em movimento. O motorista
alheio a tudo isso, engata uma primeira marcha e dá início à sua jornada porque
o capital vale mais que uma vida, como se aquela mulher e a criança de nada
valessem. Será que esse motorista foi parido por uma mulher mesmo? É até
inadmissível uma situação dessas, considerando que temos leis ambientais que
dão mais proteção aos bichos que de gente. E ainda essa mulher nessa penosidade,
nem sempre encontra alguma boa alma para lhe dar o assento. Se nos discursos políticos socialmente justos
o que mais ouvimos é “qualidade de vida”, esta por sua vez passa pelo
transporte público. Têm trabalhadores que passam mais horas dentro de ônibus
para se locomover de casa ao trabalho e viceversa do que mesmo dormindo na própria
cama. Mas isso não os isenta de cobrança de produtividade, atenção às
determinações da empresa, e pior: geram condições agravantes de acidentes. A
população ainda não tem a devida consciência que transporte público é da
inteira responsabilidade do governo. Pensam ao contrário. Geralmente quando os jovens entram no mercado
de trabalho, a primeira providência é imediatamente comprar um carro. Entra aí
um outro componente: carro é um indicador social, e este, por sua vez é um dos
itens mais “valorizados” pela sociedade de consumo. Na televisão e nas mídias em geral, os
melhores prêmios dados a vencedores de
algumas provas ou gincanas, são também carros. E tem programas direcionados
para o uso do automóvel. E haja ruas e mais ruas para atender cada vez mais uma
demanda crescente e louca por veículos. É congestionamento para não se acabar mais. Nos
finais de semana ou nos feriados prolongados, nos chamados feriadão, o trânsito
em são Paulo no sentido centropraias mais parece uma procissão de tão lento que é. Faltam-nos transportes
ferroviários para isso. Se nesse caso tivéssemos trens e metrôs de boa
qualidade, a população poderia fazer esse mesmo percurso por via férrea de
maneira rápida e segura. Carros apenas serviriam para transporte de apoio – para
vencer pequenas distâncias.
A população mais consciente das
causas políticas poderia defender seu direito de melhor transporte público –
até mesmo por amor à vida, já que nosso trânsito mata por ano cerca de 40 mil
pessoas. É bom lembrar que esse volume é subnotificado porque somente são
registrados nessas condições, os mortos nos locais do acidente. Quem morre nos
hospitais, por exemplo, fica de fora dessas estatísticas. Levantamento
publicado pela Organização Mundial de Saúde – ONU em outubro de 2015 mostrou que o país está no
caminho errado. De 2009 até agora, pulamos de 19 para 23 mortes em acidentes de
trânsito para cada 100 mil habitantes. É um número de horror. A Suécia decidiu
considerar inaceitável que alguém morra no trânsito, implantou medidas
impopulares e com isso salvou vidas.
E quanto mais se demora na solução
dos transportes públicos, mais distante fica o equacionamento do problema. Entre
eles, com a crescente urbanização, as terras vão se tornando mais caras e, para
indenizá-las para construção de ferrovias, terão em função disso um custo
maior. Investimentos em transporte público desse porte nem em discursos. Temos
muito que aprender com a Europa, Japão e China – os orientais têm os olhos
fechadinhos, mas enxergam longe – como deve ser praticada toda e qualquer
política.