Semana de 8 a 15 de janeiro de 2016
“Esse
homem não gosta de mim”
Paulo Ferreira
“Rejeição é quando o
agente provocador do fato não se enxerga no outro” – Paulo Ferreira da Rocha
Filho.
S
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ou cliente “fielizado”
cerca de oito anos de uma Casa Lotérica
que fica ao lado de meu trabalho. Já conheço as pessoas que lá atendem. Nesses
contatos de vários dias ao mês, ao longo desse tempo, cria-se se não um vínculo
de amizade ou de simpatia, pelos menos uma condição de as pessoas se conhecerem
fisionomicamente. Tenho amizade pela funcionária de mais tempo na casa. Quando chega minha vez de ser atendido por
outro caixa, peço que a pessoa que vem depois de mim passe na frente até eu ser
atendido pela “minha preferida”. E como esse fato já havia acontecido algumas
vezes com a caixa preterida, ela, sentindo-se rejeitada vociferou: “esse homem
não gosta de mim”. Aí falei que não se tratava de não gostar, até acrescentei em
tom de brincadeira que não se deixa amor antigo por amor novo. Antigo se torna
tradição com confiança; o novo, é apenas uma promessa com dúvidas. E ficamos por
aí mesmo. Depois, ruminando umas ideias, pensei no caso. O “esse homem não gosta
de mim”, traduz uma inquietação de uma pessoa que não aceitou a “rejeição”. Ela está certa. O tema Rejeição já foi estudado por Freud e Jacques Lacan entre outros. A
moça, naquele momento, teve a sensação de sentir-se como “o último dos mortais”.
E para uma civilização que busca constantemente o destaque a qualquer preço, a
invisibilidade social sai cara e até com algumas sequelas. E ninguém “normal” quer
se sentir do lado de fora das relações sociais. “O homem é um animal político” dizia Sócrates, mas o político aqui
significa social. E a rejeição com a consequência do isolamento, num primeiro
momento pode levar à depressão e aprofundando-se este quadro, pode-se até
termos o suicídio, visto que, segundo a Organização Mundial da Saúde – OMS, 15
em cada 100 pessoas depressivas podem tentar o suicídio – um número
considerável. Vemos então o quanto é importante a sociabilidade, que o ser humano
isolado não sobrevive como tal nem psiquicamente.
A humanidade evoluiu até ao presente
estádio de desenvolvimento na eterna perpetuação da espécie, porque carregou no
inconsciente coletivo o sentimento da colaboração. Sem ele, já estaríamos
extintos há milênios de anos – nem passaríamos de Adão e Eva. Sigamos então na
corrente do bem.