sexta-feira, 18 de dezembro de 2015

Semana de 18 a 25 de dezembro de 2015


Discurso sofista na mensagem de natal

Paulo Ferreira


A arte da persuasão ultrapassa todas as outras, e é de muito a melhor, pois ela faz de todas as coisas suas escravas por submissão espontânea e não por violência” - Gorgias


Ai minha mãe
Falcão

Ai minha mãe, minha mãe
Ai minha mãe, minha mãe
Ai minha mãe, minha mãe
É a mulher do meu pai.

T
rata—se de uma música do cantor cearense Falcão. Mas falcão, convenhamos, literalmente falando, gosta de aparecer. Não carrega uma melancia pendurada no pescoço porque incomoda e pode prejudicar a coluna vertebral. Trajes chamativos, flores e penduricalhos no paletó, para ele nunca é demais – é regra. E esta música simples na estrutura musical (somente três notas) e letra também bem simples segue o exemplo. É uma homenagem à sua genitora. Pequena ou grande é uma homenagem - Simples. Tudo simples. E até mesmo não há como não entender. É simples, direta e objetiva e com sentido.
          A Rede Globo de Televisão anuncia mensagem natalina com a música “Um novo tempo”. Musicalmente falando, é  harmoniosamente rica. Traz três assinaturas de peso: os irmãos Marcos e Paulo Sérgio Valle e Nelson Mota. A interpretação a cargo de Milton Nascimento - autor da pungente "Travessia". Esses compositores até dispensam apresentações e comentários.  O dois irmãos criaram belíssimas páginas musicais como “Terra de Ninguém”,  “Chuva de Verão”, “Viola Enluarada”. Nelson Mota por sua vez, brilha também como parceiro de Lulu Santos e outras sumidades. É uma surpresa a letra de “Um novo tempo” ser ideologicamente pobre e sem sentido. Composta em 1971, a letra tem boa sonoridade, mas escorrega na dialética, senão vejamos:



Um Novo tempo
Marcos Valle, Paulo Sérgio Valle e Nelson Mota

Hoje é um novo dia                                                   Comentário: Novo dia de quê?
De um novo tempo que começou                                    
Comentário: Que novo tempo é esse? Que significante ocorreu?
Nesses novos dias, as alegrias                                 Comentário: Novos dias de alegrias por quê?
Serão de todos, é só querer                                   
Comentário: Alegrias Serão de todos? Como?
Todos os nossos sonhos serão verdades                  
Comentário: Tornar sonhos em verdades é atributo de Deus.
O futuro já começou                                                  Comentário: O futuro Começou em 1971, mas onde? Quero ir para lá...
Hoje a festa é sua                                                     Comentário: A festa somente é minha quando eu a patrocino.                                                    
Hoje a festa é nossa                                               
Comentário: Nunca vi festa no sentido ecumênico. Nem em ano novo.
É de quem quiser 
Comentário: Nunca existiu festa para todos, muito menos para quem quiser.
Quem vier 
Comentário: E também o para quem vier não existe.
A festa é sua  
Comentário: Nas festas os convidados são previamente escolhidos.
Hoje a festa é nossa                                          
Comentário: Nem em 1° de janeiro – Confraternização Universal isso ocorre.
É de quem quiser  
Comentário:  Festa é para pessoas selecionadas.
Quem vier... 
Comentário: Quem quiser que chegue. Entrar é diferente.
          
          A televisão se apropria de uma coisa sem nexo e até verborrágica. E assim as coisas são construídas, vão e vem e as mudanças não acontecem.
          O que preocupa não é a questão epistemológica da construção da letra em si, mas sim a questão utilitarista do como, do porquê e para quem a mensagem é veiculada.
         Quando o futuro socialmente justo realmente irá acontecer? Isto só é possível se tratarmos de construí-lo agora. Ele não irá cair do céu.
          E nada disso estamos realizando. E dessa maneira, o nosso sonhado futuro chegará sabe-se lá quando.