Semana de 11 a 18 de dezembro de 2015
O
pisca-pisca: vá tomar no cu
Paulo Ferreira
“Alô,
alô marciano. Aqui quem fala é da Terra. Pra variar, estamos em guerra. Você
não imagina a loucura. O ser humano está na maior fissura”
– Música: Alô, alô marciano – Rita Lee/Roberto Carvalho -gravada por Elis Regina.
A
|
linguagem no título até de uma forma
provocadora e constrangedora (para alguns), é um fato real e corriqueiro. Vinha
eu, na condição de proletário tentar atravessar um cruzamento sem semáforo. Um
carro que eu pensava que iria em linha reta, entrou à direita vindo em minha
direção, sem ao menos ligar o pisca-pisca. Ao passar por mim, abaixei-me e cortesmente
falei ao seu condutor: o pisca-pisca. No que ele respondeu: vá tomar no cu.
Fissura na mecânica é algo que já não
funciona tão bem e começa a se romper por pressão, impacto ou abuso. No lado
social também temos uma fissura que está em todo lugar e vem também de todo lugar.
E como “para variar, estamos em guerra”, o trânsito se torna um campo de
batalha. Batalha sem a figura de um Aníbal - um dos maiores estrategistas de
guerras de todos os tempos. Só que não é um exercito contra outro. É diferente:
são todos contra todos e palavrão é o de menos. Pelo menos não mata, a não ser
de vergonha. Carro passa a ser o tanque
de guerra. E se tanque é mais poderoso que um simples carro, imagine o
apoderamento em se dirigir um tanque, quando os demais veiculos são inferiores.
Vemos de tudo: caminhões, ônibus, carros, motos, bicicletas e até pedestres – este,
elo mais frágil dessa corrente se comportarem de forma imprudente. Leis são
criadas para disciplinar condutas. No caso está em jogo a vida – nosso bem
maior.
Nossa preocupação a que o sistema nos
impõe é de acumular capital financeiro - bens. Existe um capital maior – o capital
social que são as pessoas que fazem parte de todo o nosso convívio e também às
mais distantes. Quem tem preocupação em acumular capital social se preocupa com
o outro porque enxerga-se nele. E nesse cenário, vemos que a sociedade está
doente. Se Erich Fromm já falava disso lá nos anos 1950, agora os
relacionamentos azedaram. Muitos se distanciam dos outros para se defenderem –
isolaram-se em seu bunker. Uns outros,
pensam que dinheiro os protege. E na “batalha” no
trânsito morrem no país cerca de 40 mil pessoas por ano. É um número muitíssimo
expressivo considerando que uma máquina que serve ao homem seja ao mesmo tempo
utensílio e arma. E se a essa altura da civilização ainda não respeitamos a amar
e a preservar a vida, é porque tem alguma coisa errada. A resiliência humana
está no limite. As cobranças que lhe caem sobre os ombros já não são suportadas
como antes. Se fazemos parte de um grande elenco no teatro da vida, a busca
pelos holofotes é acirrada. Muitos menos talentosos atropelaram os talentosos.
Trocamos boas qualidades por grandes volumes de lixo. Antes, em nosso meio social,
tínhamos unidade e identidade. Perdemos esses dois grandes atributos para
sermos hoje uma sociedade de zumbis, amorfa e acéfala. E como sabemos, zumbis
não respeitam condutas nem a vida.
Perdemos nossa bússola social.