sexta-feira, 21 de agosto de 2015

                  Semana de 21 a 28 de agosto de 2015

Foto: minhateca.com.br

                  Cinquenta  anos da Jovem Guarda

Paulo Ferreira

“Não sabíamos a dimensão do movimento. Era uma coisa maravilhosa! Não significou simplesmente um movimento de  músicas de sucesso, mas uma transformação social. A Jovem Guarda jogou por terra uma série de conceitos e barreiras. Foi uma transformação. A prova de que não foi apenas um programa que acabou reside no fato de o movimento estar presente até hoje, nos relançamentos, nas novas gravações, em shows etc. A Jovem Guarda ficou no coração da nossa geração e influenciou vários outros movimentos. Sem a Jovem Guarda, a Tropicália não teria sido como foi” – Jerry Adriani cantor, compositor e uma das colunas da Jovem Guarda.


E
rasmo Carlos certa vez se referiu a Jovem Guarda como um tsunami. Mudanças de hábito na cultura, principalmente na música e moda jovens no país. As recentes guitarras elétricas, para alguns, “símbolo do imperialismo norte-americano” se faziam presentes. Mudaram o visual trivial. Os homens usavam botinhas à moda Beatles, camisas nas mais variadas cores e modelos, calças justas e com cintura baixa. O guarda-roupa do Roberto Carlos para alguns, anacrônico: camisas coloridas, com golas rendadas e babados, remetiam ao Barroco, lá pelo século XVIII. Cabelos compridos ajudavam a compor o poder imagético, bastante extravagante sob os olhares sisudos dos mais velhos e também dos Mexericos da Candinha – coluna mais lida da Revista do Rádio. Wanderléa, ao contrário, usava roupas “futuristas” inspirada no Flash Gordon.
          O programa Jovem Guarda da TV Record – São Paulo foi um remendo na programação. Com a proibição da transmissão ao vivo dos jogos do Campeonato Paulista, a cúpula da emissora resolveu fazer a substituição por um programa musical direcionado ao público jovem. Também preparando com isso um poderoso arsenal musical para brigar com um outro programa líder de audiência desde 1964 - “Festival da Juventude” da TV Excelsior. Roberto e Erasmo foram selecionados para a apresentação do programa porque  das vinte músicas nas paradas de sucessos, seis eram deles. O apresentador seria Erasmo, mas este declinou em benefício do Roberto. Celly Campello foi convidada mas recusou a proposta. Em seu lugar entrou Wanderléa. Roberto, Erasmo e Wanderléa formaram o “triunvirato” da novidade. O programa seria “batizado” com o nome “Festa de Arromba”  música da dupla Roberto-Erasmo. Mas uma voz discordante argumentou que com o passar do tempo, esse nome,  acompanhando o desgaste da música perderia o vigor. A palavra Jovem Guarda foi transcrita de um discurso do revolucionário bolchevique Vladimir Lênin: “...  O futuro pertence a jovem guarda porque a velha está ultrapassada...” Uma espécie de deboche tácito dirigido ao governo militar. Assim, no histórico 22 de agosto de 1965, numa tarde até então sonolenta, nascia o esfuziante programa de televisão Jovem Guarda. Antes de entrar em cena, o jovem apresentador Roberto Carlos, de apenas 24 anos, medalhão de Jesus Cristo pendurado no pescoço e dois anéis chamativos. Uma dose de San Raphael para dar uma esquentada para acordar os ânimos.   Cabeça encurvada quase à altura do joelho e chama: “o meu amigo Erasmo Carlos”. Na  estreia estiveram presentes: Os Incríveis, Tony Campello, Wanderléa, Rosemary, Ronnie Cord, The Jet Blacks, Erasmo Carlos e Prini Lorez. Depois desse dia, as “jovens tardes de domingos” das 16h30 às 17h30 nunca mais foram as mesmas – adeus sono.
        De programa a movimento Jovem Guarda, este nome transformou-se num mantra comercial – vendia-se tudo o que dele produzia e se reproduzia. Roberto Carlos detinha  a marca Calhambeque com calças e bonecos; Erasmo  com calças e camisas Tremendão. Wanderlea com sua marca Ternurinha, também prosperava com seu negócio. Aqui o exemplo de mobilidade social: saída da pobreza e anonimato para o mundo da fama e luxo – só o começo. Outros setores também passaram a ganhar mais dinheiro: jornais, revistas, anúncios, televisão. Tudo ou quase tudo era Jovem Guarda. Até a música clássica se rendeu ao seu poder midiático quando o maestro Diogo Pacheco fez arranjos para as músicas “Quero que vá tudo para o inferno”, “Pescaria” e “Festa de Arromba” interpretadas pelo barítono Iunglio Faustini e pela soprano Stela Mares.
          Também não faltaram os críticos de plantão com seus apedrejamentos ideológicos taxando a Jovem Guarda de alienada. Separando o joio do trigo, não se tratava de nenhum movimento universitário de cunho libertário. Até mesmo porque não tinha nenhum cientista social ou algo parecido. Sérgio Murilo, cantor nessa época de maior sucesso era estudante de Direito da Faculdade Cândido Mendes e, seu maior hit foi “Marcianita” uma versão narrativa de um jovem apaixonado. Uma música com letras nos moldes do que se ouvia para os sonhadores. O que importava era fazer ou versionar músicas simples, bonitas, sem os acordes dissonantes da Bossa Nova. E música bonita nesse período teve bastante. Até revelou uma grande compositora: Martinha que em suas primícias deu de presente ao Roberto Carlos um primor de música entre tantas, “Eu daria a minha vida” – estrondoso sucesso. Duas vozes potentes se sobressaiam: Wanderley Cardoso e Jerry Adriani. Versionistas mais conhecidos eram Fred Jorge e Rossini Pinto. Eles trabalhavam nas músicas famosas. Resultado: sucesso no original e na versão.
          No final de 1967 o programa começou a despencar na audiência com perda de 18%. Em 1968, Roberto Carlos enfrenta uma maratona de compromissos: visando mudanças, para o Black Music (Soul/Funk). Em 3 de fevereiro ganha o Festival de San Remo com a música Canzone per te.  Em 17 de fevereiro sua última apresentação no Jovem Guarda e, passa o comando do programa para Erasmo e Wanderléa. Casa-se com Cleonice Rossi em 10 de maio. Filmagens de “Roberto Carlos em Ritmo de Aventura”. Essas alterações devem ter provocado toda  “fadiga” na audiência.
          Do “Comando de Caça até a  Jovem Guarda”, do passado, muitos já morreram. Mas deixaram alguns remanescentes repetindo o velho discurso do patrulhamento ideológico. Se a cobrança vem desde essa época, meio século depois, era para termos hoje mais letras com cunho social?  Que tipo de música ouvimos? As músicas evoluíram? A sociedade hoje é melhor e mais consciente daquela dos tempos da Jovem Guarda? Podemos usar música ou qualquer outra manifestação de Arte para classificar o padrão cultural do País? E os indicadores sociais ontem e hoje? O que ouvimos hoje é melhor ou pior que há 50 anos? 
Com a palavra o leitor.
          A última edição do Jovem Guarda com o então comando de Erasmo e Wanderléa foi ao ar em junho de 1968.


P.S. – A Jovem Guarda não era somente Roberto, Erasmo e Wanderléa. Outros nomes como Renato e Seus blue caps, Ronnie Von, Golden Boys, Trio Esperança, The Jordans, The Pop’s, The Fevers, The Jet Blacks, Os Incríveis, Joelma, Waldirene, Bobby Di Carlo, Ségio Reis, Leno e Lílian, Demétrius, Eduardo Araújo, Silvinha, Celly e Tony Campello, Brazilian Bitles, Os Canibais, George Freedman, Albert Pavão,  Ed Carlos, José Ricardo, Dic Danello, Os Vips, Getúlio Cortes, Reginaldo Rossi, Dori Edson e Marcos Roberto, Kátia Cilene, Arthurzinho, Jorge Bem Jor, Tim Maia, Lafayette e seu Conjunto, Os Jovens, Adriana Wilson Simonal e, tantos outros.