sexta-feira, 6 de novembro de 2015



Semana de 6 a 13 de novembro de 2015
Cinema está em crise?

Paulo Ferreira

“O cinema não tem fronteiras nem limites.  É um fluxo constante de sonhos ”– Orson Welles.

A
 inteligência no cinema está em crise? Cinema é acima de tudo inspiração-criação. Fellini dizia que o cinema equipara o homem a Deus – tal é o poder de sua inventividade. Quase tudo já foi feito para as telas, desde a um dos pioneiros  “Chegada do Trem a Estação de Ciotat” em 28 de dezembro de 1895,  passando por  “E o vento levou” - (1939), “Casablanca”- (1942),  Titanic – (1997) e tantos outros– muito já se fez. O cenário em todo mundo mostra sinais de fadiga. O Brasil já sonhou com sua Hollywood quando criou a Cinédia em 1930, a Atlântida em 1941 e a Vera Cruz em 1949. Nos anos1950, tivemos “O cangaceiro” (1953) de Lima Barreto – Primeiro filme brasileiro premiado no exterior. Formou-se logo depois uma leva de filmes parecidos, pois todos queriam explorar o filão. Esse efeito imitativo foi visto também em Ben-Hur (1959) do diretor William Willer. Nele, temos cenas de duelo em quadrigas, quando o herói palestino bíblico Ben-Hur finalmente derrota o romano Messala. Também daí em diante, os filmes posteriores ao gênero, e pegando carona no sucesso, quase que obrigatoriamente tiveram também de mostrar  bigas ou quadrigas puxadas por cavalos em pena ação. O cansaço viria retratado na própria tela, antecipado como próprio espelho, quando, na década de 1940,foi lançado “Crespúsculo dos Deuses” – (1950) no gênero noir. Nele, num argumento linear e previsível, os personagens são uma atriz que havia sido bastante iluminada pelos holofotes da fama e um roteirista desacreditado e com aparente perda do vigor criativo.  Podem surgir com isso imitações -  um passa a imitar o outro. É quando se tem uma tentativa recorrente e sem criação. Por sua vez, o cinema brasileiro quase sempre explora a miséria e violência urbanas não contextualizadas com suas origens socioeconômicas. Mostra nossa barbárie e, quando depois saímos da sessão, sentimos um mal-estar tipo esgotamento espiritual – pois o filme pouco ou nada acrescenta de positivo. É fácil explicar esse veio: produção com poucos atores e recursos que economizam com cenários porque estes já existem nas cidades brasileiras. Para completar, basta convidar um rosto conhecido principalmente das novelas para serem os mocinhos. Bandidos são os desconhecidos, mesmo que sejam extremamente talentosos. Quanto à produção, deixa-se sob os auspícios da “mamãe” Petrobras.
          A crise é de criação, não é econômica mesmo não se tratando de filmes do gênero “Monumentalista”.  Há inclusive trilogias, polilogias e outras quantificações que extrapolam qualquer raciocínio lógico que cai depois num grande esvaziamento.
          Margaret Mitchell, vencedora dos prêmios Pulitzer e National Book Award, autora de “E o vento levou”, foi convidada por um estúdio  para dar sequência  tipo “E o vento levou 2”. Ela peremptoriamente recusou tal proposta. Não que lhe tenha faltado criatividade – sobraram-lhe honestidade e respeito ao público cinéfilo.  

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