sexta-feira, 29 de abril de 2016

Semana de 29 de abril a 6 de maio de 2016


Uma sociedade sem tempo para viver

Paulo Ferreira

“Para que tanta pressa e tanto receio? O futuro sempre nos chega a uma velocidade de 60 minutos por hora” – Albert Einstein (1879-1955) cientista alemão.

U
m dia é assim: papai, venha brincar comigo...
- Não tenho tempo, meu filho. Não está vendo que seu pai está ocupado?
Um outro dia também é assim: mamãe, venha brincar comigo...
- Não tenho tempo, meu filho. Não vendo que sua mãe está ocupada?
Todo dia se faz tudo sempre igual. Estamos vivendo, correndo como loucos para fazer tudo no menor lapso de tempo: trabalhamos o mais que podemos. As poucas horas que nos sobram, procuramos fazer atividades das mais diversas. Vivemos em um mundo cheio de neuroses porque a competição que estamos submetidos nos impôs que um procure ser melhor que o outro. É a era da pressa, da velocidade. Estatísticas mostram que o volume de informações digitais disponível dobra a cada dois anos. É muita informação para ser trabalhada, processada e, analisada criticamente. É uma corrida sem fim. Fala-se que 24 horas no dia é pouco.... Estamos nos robotizando e perdendo nossa sensibilidade para quase tudo. Muitas pessoas não querem esperar por nada. As buzinadas impertinentes que rasgam o ar e fere nossos ouvidos no trânsito caótico é a “sinfonia” que mais ouvimos. E por falar em música, dizem até que qualquer barulho, ruído pode ser enquadrado como tal. Da mulher que sobe no ônibus com uma criança no colo, ao mesmo tempo com uma sacola e, tenta com dificuldade passar pela catraca. Mas o ônibus está em movimento – o motorista que nada disso acompanha, vê mas não enxerga que aquela mulher e criança podem se acidentar gravemente e até morrer. Ele engata uma primeira marcha e segue sua jornada nesse trabalho embrutecido repetido anos e anos. O filho e a mulher não são dele. Ele nem espera que a mulher se acomode com a criança numa cadeira – afinal, capital é mais importante que gente. Até mesmo considerando que a depender da situação, falta o primeiro e sobra o segundo.
          Falta-nos tempo porque não sabemos administrá-lo. O filósofo alemão Robert Kurz lança a pergunta: “por que depois que inventaram as máquinas as pessoas têm de trabalhar mais que antes da existência delas? ” Tivemos um avanço na mecanização e na computação. Só que esse avanço não refletiu na qualidade de vida do trabalhador, e sim, do lucro. A palavra de ordem é produtividade – consegui-la a qualquer custo é o objetivo a ser atingido porque “os fins justificam os meios”. E nessa corrida desenfreada para o nada, o estado psicológico entra em pane e gera tecnostress segundo o psicólogo norte-americano Larry Rosen. E a falta de tempo para os filhos, o lazer, as visitas a familiares e amigos etc? E aquela conversa tantas vezes repetidas de nossos pais e avós, sempre ecoando nas paredes das casas?
          Estamos vivendo a Modernidade Líquída – de acordo com o pensador polonês Zygmunt Bauman. Tudo acontece e desaparece rápido como cogumelos. Tudo faz e refaz, e nesse vai-e-vem, as amizades também. A cada dia vamos nos transformando em mercadoria. Valendo pouco, coisa de um mundo neurótico, frio e muito louco.